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Devlyn da Helena

  • Foto do escritor: Valdano Da Silva
    Valdano Da Silva
  • 26 de jan. de 2022
  • 4 min de leitura

"Acorda meu Diabinho! Está na hora de ir para o inferno"


A frase com que a minha mãe me acordava todas as manhãs para ir para a escola.

Eu dava tudo para ouvir a sua voz uma última vez… Estou a morrer! Quero a minha mãe! HELENA! HELENAAAAA!


O meu nome é Devlyn Mendez, tenho quatorze anos e sou filho de Helena.

A minha mãe cuidou de mim sozinha, com muito sacrifício, depois de o meu pai a ter abandonado quando ainda estava grávida, dizendo que eu não era filho dele, e que a minha mãe tinha andado a "pular a cerca" A verdade é que tenho a cara dele... pelo que vi nas fotos, e pelo que a vizinhança dizia.


A minha mãe teve-me ainda muito jovem, e por isso, não gostava que lhe chamasse de mãe, dizia que a fazia sentir velha… preferia ser chamada pelo seu nome, Helena!


Filho único, mãe trabalhadora, pai ausente e bairro problemático, os vizinhos diziam que eu estava destinado a ter a vida que o meu pai e os outros moradores do bairro tiveram... Trabalhos precários para os que trabalhavam, ou, optar pelo dinheiro fácil e acabar morto em ajustes de contas ou ir preso... O que sempre me fez rir... Eu sabia que não iria ser nada disso, não, eu queria ser advogado e ajudar a minha mãe a pagar a renda, sem que ela tivesse que implorar ao senhorio para "esperar pelo mês que vem".


O meu inferno, a escola... Não gostava muito da minha escola! Tive muitos problemas, sentia que ninguém gostava de mim, os meus colegas gozavam comigo, e eu acabava por lutar quase todos os dias. A professora nunca tinha resposta às cartas que manda para casa, a minha mãe mal tinha tempo para as refeições, quanto mais para ir à escola ouvir "o Devlyn voltou a lutar."


Porque andava sempre à Porrada? nunca soube, mas parecia ser a única forma de defesa, em casa Helena sempre dizia para não deixar que ninguém levasse a melhor, eu não gostava de injustiça, e quando lutava, era porque ia defender alguém, ou porque gozavam comigo por eu não ter roupas nem sapatos de marca, como todos os outros meninos… A minha mãe trabalhava duro, e o dinheiro que ganhava, mal chegava para comermos.


No bairro havia muita coisa má, muito crime, drogas, prostituição... Mas também havia muita coisa boa... Solidariedade, amizade e orgulho... de ser negro... O que parecia incomodar as autoridades.

Aos fins se semana, havia sempre alegria, piqueniques, música, jogos e muita risada... Mas infelizmente era também a altura ideal para os mal intencionados fazerem das suas.

A polícia fazia rusgas frentes, e nos fins de semana, as passagens eram mais frequentes, mas mesmo assim, não impediam que pequenos desacatos acontecessem.


Foi num fim de semana de verão que tudo acabou... consegui escapar à vigilância da minha mãe durante um piquenique e fui andar de bicicleta com uns vizinhos... Sem nos apercebermos, entrámos em uma zona menos bem frequentada... como estávamos de bicicleta, decidimos acelerar a pedalada, para não sermos chateados.


Alguns metros mais à frente, um homem sai de uma loja com uma pistola na mão, e corre em direção a nós... atrás dele, o dono da loja corre enquanto grita por auxílio... tinha acabado de ser assaltado, e o assaltante vinha direito a nós... entrámos em pânico, demos meia volta... Atrás do assaltante, dois polícias contornam a esquina da loja a correr atrás do ladrão... que não pensa duas vezes antes de disparar. Parecia cena de filme... Nós os três de BMX, o assaltante a correr na nossa direção, e os polícias atrás dele... virei à direita, os meus vizinhos continuaram, pedalei sem olhar para trás, continuava a ouvir disparos, sirenes, e pneus a gritar enquanto deixam a pele no alcatrão, tiros... gritos das pessoas nas janelas, olhei para trás, um polícia continuava atrás de mim, quando voltei a por os olhos no caminho... atropelei um caixote de lixo, caí e entrei em pânico, o polícia avança e eu tento procurar abrigo arrastando o corpo no alcatrão quente, no chão, o meu telemóvel toca, no ecrã, a foto da bela Helena aparece... O polícia a uns cinco metros de distância... aponta a pistola para mim e diz para eu ficar quieto com as mãos atrás da cabeça... eu só queria dizer à Helena para me vir buscar... estava com medo! Vi a polícia matar o meu primo por ele estar a jogar ao dado com os amigos... tenho medo! Tenho que dizer à Helena para me vir buscar... Mãe! Estiquei o braço para pegar no telemóvel...


Quatro balas! Uma no ombro, uma no braço e duas na cabeça, o alcatrão parecia estar a arrefecer, os vizinhos gritavam "é o Devlyn! Chamem a Helena"


" acorda meu diabinho! Está na hora de ir para o inferno"...


Devlyn Mendez morreu aos 14 anos com quatro balas disparadas por um polícia, que diz ter disparado antes que o rapaz o fizesse... Pois confundiu o telemóvel com uma pistola.




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